Mudanças
Segunda, 17 de Novembro de 2014
Mudanças...de casa, de vida, de rotinas. Uma mudança de casa, ainda que provisória, leva um pouco de nós. Cenas de uma vida familiar que vão ficar entre aquelas paredes, e que não vamos poder levar. Porque há momentos que por muito que recordemos só conseguimos revivê-los no sítio onde tudo aconteceu.
A vida está em constante mudança e, bem sei, o que interessa é olhar para a frente, que atrás vem sempre gente. Se quisermos olhar para trás, então que o façamos com um sorriso nos lábios, sem qualquer pingo de arrependimento, sem aquela saudade voraz. Porque a saudade boa é que conta, é que importa, é que segura. A saudade boa é que nos torna numa pessoa mais audaz, mais madura. Eu sei disso tudo e muito mais. Mas, confesso, ainda não consigo ultrapassar tudo isso sem os meus famosos "Ais!"
Hoje o meu querido Avô faria anos. Amanhã faz dois que a minha Avó nos deixou. Nunca escondi que tenho uma admiração enorme por cada um deles. O meu Avô, que tanto nos ensinou. A minha Avó, que por nós sempre lutou. Tenho a certeza que, lá onde estiverem, estão a comer um grande bolo de ovos moles carregado de chocolate, do mais doce e enjoativo que há. A minha Avó era péssima cozinheira, mas nunca deixou passar uma data em branco sem os seus doces mais que doces, ainda que fossem (quase) todos encomendados. Mas o que interessa é o amor que impingia em tudo o que pensava, magicava, fazia. Tenho saudades daqueles almoços apressados e barulhentos, em que o meu Avô dizia os disparates do costume, com aquela sua expressão tão sua, tão carinhosa, tão saudosa. Um entra e sai, um corre-corre de filhos, netos e bisnetos, que tanto tinha de stressado como era carregado de amor ao cubo e ao quadrado. Tantos beijinhos no ar, tantas gargalhadas perdidas, tanto cafuné, tantas piadas sentidas. E depois lá estava o meu Avô, sempre à cabeceira, com a sua cerveja preta, a sua careca sobeja e o seu ar tranquilo, de quem tem a ternura sempre à espreita.
Bem sei que já falei dos meus Avós vezes sem conta, bem sei que me repito, bem sei! Mas nestes dois dias, é impossível não reviver, não sentir saudades... é impossível não lutar para nunca os perder. Na minha cabeça, ainda nada do que se passou pode acontecer. Ainda é muito cedo para nunca mais os ver.
E são estas mudanças, estes ciclos que se abrem e fecham na nossa vida  que, confesso, não consigo encarar. Cada pessoa que perco, cada momento incerto, cada pitada de futuro inconstante, são para mim uma tristeza marcante. Mas um dia, hei de conseguir virar uma página sem este medo quase petrificante.
 
Porque, há-que acreditar, o essencial é mesmo invisível aos olhos.
 
 
 
Partilhado por Francisca Ortigão Guimarães

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